O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou na última semana o IPCA de junho: 0,38%. O número ficou abaixo das expectativas do mercado, que projetava algo entre 0,42% e 0,48%, e foi comemorado por economistas como sinal de que a política monetária restritiva está funcionando.

Mas há um detalhe que raramente aparece nas manchetes: o IPCA é uma média. E médias escondem realidades muito diferentes.

IPCA de junho por grupo de consumo
Alimentação no domicílio+0,72%
Habitação+0,41%
Transportes-0,18%
Saúde e cuidados pessoais+0,55%
Educação+0,08%
IPCA geral+0,38%

O problema da cesta básica

Famílias de baixa renda gastam uma proporção muito maior da sua renda com alimentação do que famílias de renda mais alta. Segundo dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE, famílias com renda de até dois salários mínimos destinam cerca de 32% dos gastos à alimentação. Para famílias com renda acima de dez salários mínimos, esse percentual cai para 14%.

Isso significa que quando a alimentação sobe mais do que a média, o impacto é desproporcionalmente maior para quem ganha menos. Em junho, a alimentação no domicílio subiu 0,72% — quase o dobro do IPCA geral. Feijão, arroz e carnes contribuíram com a maior parte desse aumento.

O que explica a alta dos alimentos

A seca que afetou parte do Centro-Oeste no primeiro trimestre ainda está se refletindo nos preços. A safra de feijão foi 8% menor do que no ano anterior, segundo a Conab. Para o arroz, a situação é diferente: a safra foi boa, mas o preço subiu porque parte da produção foi exportada, aproveitando o câmbio favorável ao exportador.

Carnes bovinas seguem pressionadas por demanda externa forte. A China continua sendo o principal destino das exportações brasileiras de carne, e o preço interno acompanha o externo com defasagem de dois a três meses.

O que esperar nos próximos meses

Economistas consultados pela Gazeta Econômica divergem sobre a trajetória da inflação de alimentos no segundo semestre. A maioria projeta alguma acomodação, mas ninguém está confortável com o cenário climático: La Niña pode afetar as chuvas no Sul e Centro-Oeste entre agosto e outubro, impactando a safra de verão.

Para o consumidor, a dica prática é monitorar os preços de proteínas e grãos — que tendem a ser os primeiros a sentir choques de oferta — e ajustar a cesta de compras com antecedência quando possível.